Uma Solidão Ruidosa

Clube de Regatas 29 de outubro de 2010

Notícia - Capa do livro Uma Solidão RuidosaUMA SOLIDÃO RUIDOSA

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Bohumil Hrabal

Cia das Letras

106 páginas

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UMA  SOLIDÃO  RUIDOSA:  UM  PORRE  DE  REALISMO  MÁGICO
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Quando meu olho pousa em um livro real e olha a palavra impressa, o que ele vê são pensamentos descarnados voando pelos ares, deslizando no ar, vivendo do ar, voltando para o ar, pois, no fim, tudo é ar”.

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Pela primeira vez em minha sexagenária existência, terminei de ler um livro e, imediatamente, voltei à sua primeira página para recomeçar a leitura: e faria isso mais vezes com enorme satisfação.

Essa foi a reação causada em mim por um dos últimos trabalhos de um dos mais importantes autores tchecos contemporâneos, “Uma solidão ruidosa“, publicado em 1976, que parece, à primeira vista, produto clandestino de um país sob um regime repressivo, como o que vigorava na então Tchecoslováquia soviética. No entanto, passados mais de trinta anos do fim do comunismo no país que acabou se dividindo em duas nações distintas, o relato de Bohumil Hrabal pode ser lido como um dos momentos altos de um tipo de realismo mágico típico dos países da Europa central e do leste.

O narrador, Hanta, passou os últimos 35 anos de sua vida compactando papel usado em uma velha prensa hidráulica, num porão de Praga, infestado de ratos: “ser compactador é um serviços que requer não apenas uma educação clássica, de preferência em nível universitário, mas também um diploma de teologia, porque na minha profissão a espiral e o círculo se juntam, o progressus ad futurum encontra o regressus ad originem”. Durante esse período, Hanta aproveitou para salvar da destruição mais de 3 toneladas de livros raros, possivelmente banidos pelo regime, que ele acabou sorvendo junto com os milhares de litros de cerveja que faziam a alegria de sua alma atormentada. Parte desses livros – Aristóteles, Nietzsche e Goethe são apenas alguns dos autores – Hanta vende para um professor, outra parte é doada a um amigo. O resto permanece estocado precária e ameaçadoramente acima de sua cama, no minúsculo apartamento onde mora.

As mulheres de sua vida – uma anônima garota cigana e a infeliz Mancinka -  junto com seu chefe e ele mesmo, entre outros personagens  – o cigano fotógrafo com óculos de armação dourada, as ciganas azul-turquesa e violeta aveludada, o professor de Filosofia, as presenças etéreas de Jesus e Laozi ao lado da prensa – formam uma galeria humana bizarra e variada que garante a “Uma solidão ruidosa” o status de genuína pérola literária, concisa e muito poderosa. Seus temas de fundo, vastos e evocativos para o leitor de qualquer época, vão da persistência da memória à evanescência de todo  texto literário, das inconsistências  do desejo à implacabilidade de uma tecnologia dominada por burocratas insensíveis – a prensa de Bunny sustituindo trabalho de 20 prensas comuns, nas mãos dos jovens da Brigada de Trabalho Socialista – , que acabam ameaçando a própria vida do fabuloso Hanta.

Ler essa obra de Hanta:  “É como jogar lindas frase na boca e chupá-las como balas de fruta, ou sorvê-las como licor, até o pensamento se dissolver em nós feito álcool, infundindo-se no cérebro e no coração e atravessando as veias até a raiz de cada  vaso sanguíneo”.

Enfim, Hanta pode ser um idiota encharcado de cerveja, como diz seu chefe,  -  um idiota diferente, capaz de citar o Talmude, Hegel e Kant com sua cultura bizarra e desorganizada, subproduto do trabalho braçal que desempenha -  mas deixará marcas indeléveis na alma e no coração daqueles que amam os livros.
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ANTÔNIO  CARLOS  TÓRTORO

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