Caim

Clube de Regatas 30 de agosto de 2010

Notícia - Capa do Livro CaimCAIM

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José Saramago

Cia das Letras

172 páginas

Prêmio Nobel de Literatura

A venda nas livrarias Paraler: www.paraler.com.br
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.           . “Estarmos nas mãos de deus, ou do destino,
.                      . que é que é o seu outro nome…”

.                              .     . Saramago

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Li em uma tarde esse novo romance, do vencedor do prêmio Nobel, José Saramago, em que ele reconta episódios bíblicos do Velho Testamento sob o ponto de vista de caim, que, depois de assassinar seu irmão, trava um incomum acordo com deus (asim mesmo, caim e deus, com minúsculas) e parte numa jornada que o levará do jardim do Éden aos mais recônditos confins da criação

Como “a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir”, os acontecimentos não obedecem a linha cronológica do tempo bíblico mas vão brotando livremente das páginas de Caim conforme a vontade e satisfação do autor

Se, em “O Evangelho segundo Jesus Cristo“, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra.

Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura.

Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos.

Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas (Adão, Eva, Abel, Noé, Lilith, Noah, Abraão, Isaac, Josué, Enoch, Moisés, Jó, Sem, Jafé)  dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.

A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: aqui, a capacidade de tomar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas dessas antigas lendas.

Ao ler Saramago sempre vejo nele um Advogado do Diabo, um homem inteligente que conhece bem como devem ser entedidas as mensagens contidas na Bíblia, mas que, propositadamente, munido de ferina veia humorística, descreve grotescamente uma estranha guerra entre o homem e o senhor, com o objetivo de alertar, usando a razão, para as conclusões absurdas a que  chega aquele que  lê literalmente o Livro Sagrado.

Enfim,  investiga a fundo as possibilidades narrativas da Bíblia, demonstrando novamente que, ao recontar o mito e confrontar a tradição, o bom autor volta à superfície com uma história tão atual e relevante quanto se pode ser.

- Antônio Carlos Tórtoro

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